quinta-feira, março 9

Com você por perto
meus livros tinham conserto
você os restaurava com destreza
depois os punha em cima da mesa
para a hora em que eu chegasse.

quarta-feira, fevereiro 22

O engraçado é que enquanto dirijo
imaginando-te versos
à noite, a caminho de casa
tu, tão longe e distante, sentes
sabes
me ouves e vens
com palavras da India
e te dizes ausente.

Mas onde no universo
a presença não está?

quinta-feira, novembro 10

Nada importa

Nada nesse mundo importa – às vezes te sinto, em silêncio às vezes te chamo e sei que de alguma maneira me sentes e ouves. Outro dia te chamei e tu apareceu, não sei se porque chamei ou o chamei pois o senti por perto, vai saber, não sei. Sei que o coração atrai. Em sutilezas me alcanças a tua presença, brilhante que é, imensa e profunda, como um oceano para se perder. Perdi-me? Sei onde estou, para onde vou – apenas espero te encontrar por lá. Às vezes me vens num sonho, dizer uma coisa ou outra, à toa ou séria, e o que sinto é a mesma coisa exata que em tua presença, um arrebatamento completo e vivo, total e absoluto, inexplicável em si mesmo.

quinta-feira, novembro 3

Diadorina

Conversou com um moço bom de conversar.
Falaram sobre poesia com um clima de romance no ar.

segunda-feira, setembro 12

Coração do mundo

Cada pequeno esforço
cada sincero impulso
do homem
em direção ao Amor
deve-se guardar
no coração do mundo,
lugar fecundo
de onde sonhos lindos
nascerão

sábado, agosto 27

Poema de amor tranquilo, para ler em silêncio

Somos duas expressões de Deus.
Distintas em nossa forma
porém iguais em origem e direção.
Viemos cada um com a sabedoria
e, em comum, uma missão.

Mas são dois caminhos a serem trilhados.

Como espelhos
iremos por todas as partes iluminar
a luz do Sol que nos uniu

sábado, janeiro 30

Sim

Yes,
true love grows
from infinity
above all

quinta-feira, abril 23

Mais importante que eu e você permanecermos juntos, é o que aprendemos um com o outro sobre nós mesmos. E a coragem para olhar isso de frente. 

segunda-feira, abril 13

Nada adianta

Nada adianta.
Tudo
em seu tempo.

quarta-feira, agosto 6

No escuro
seduz-me
ímã

Somos duas galáxias
duas almas
irmãs

segunda-feira, julho 28

Entenda-me

Entenda-me. Percorro-te
e é sempre por inteiro
que te sei,
és tão meu
quanto o meu sonho
e quando te olho nos olhos
surpreendo-me toda vez.

terça-feira, junho 24

Sobre esmurrar paredes para ter mãos mais firmes e fortes

Não acredito que seja junho
que o mundo doa tanto
sem ti não acredito
em nada disso
e apesar de
tudo
levanto,
todos os dias
sob encanto profundo
e lanço o meu corpo
vazio
ao vazio do espaço
morta de cansaço
contudo levanto
os punhos cerrados
e em silêncio luto
luto,
luto..

segunda-feira, junho 23

Não sei do que se trata

Súbitos escritos no silêncio
dos teus olhos estão os meus
poemas. Súbitos arrepios
que percorrem feito ondas
estes versos, súbitas quimeras
da tua chama fria e oculta.

São densos estes pântanos
em que te pões, são densos
os espaços entre nós, tudo
fantasio enquanto não vens.
São densos os meus sonhos
mas foram leves e foram lentos

meus beijos na tua pele macia.

11 de maio

segunda-feira, maio 26

MAR NOTURNO

Do frio e do sal da tua pele
os meus lábios estão secos
embora completamente
imersa em azul imensidão
não me desespero, ou tenho sede

escuto, calma
o barulho das ondas quebrando
em tuas pálidas costas
com devoção

quarta-feira, maio 7

A melancolia

A melancolia bate forte na carne,
e a carne gosta – só pode!

quarta-feira, abril 2

Charmer

- Como é que as pessoas te chamam?
- Por quê?
- Quero ser uma pessoa que te chama.

quinta-feira, março 20

Livro/ivre/aria





bem lá no alto alcancei-o, o corpo alongado, os dois pés em ponta.



há tempo guardado, não visto, quase (mas nunca) esquecido na estante levou-me viajante a passear no tempo, ao momento exato em que chegara a minhas mãos.



agora na varanda abro-o devagar, grande que é cobre-me o colo os ombros os braços toca-me os seios sob o tecido leve e vermelho da blusa frouxa de outono quando abraço-o para sentir junto a mim seu cheiro ainda fresco, inconfundível cheiro de livro novo, pouco tocado...



beijo-o tocando apenas lábios entreabertos com a pressa ausente do primeiro beijo lembro-te



e esqueço-te tão breve e serenamente como as folhas que caem no jardim.


Jardim. Klimt, 1905/06 

sexta-feira, fevereiro 21

MAR ABERTO

Você toca
os lugares 
que gosto
mui lentamente
e depois toma
tempestade em alto mar
meu corpo inteiro
Vagabundeia
com seus lábios de espuma
palavras de areia
e as costas desérticas
de minha pele nua
habilmente navega
você, menino faceiro
com mãos de marinheiro
e tatuagens no braço
eu, mar aberto
e sem fim
feito o desejo em mim.

quinta-feira, fevereiro 20

Sky high

I feel qualified
To love the sky
Every time
I look up above
 

sábado, janeiro 4

Rio com ele

Ele mora no Rio
Eu que sou carioca
Fico aqui passando frio
Ele lá cheio de bossa
Cheio de estilo, tranquilo,
Meu Deus, com essa camisa
eu piro
de amor, dou voltas na “Lua
das pedras do Arpoador”
e tenho fome de carne crua
pela manhã
E ele me dá
iogurte de ameixa
eu não faço queixa
afinal, é certo
ele me deixa bem perto
quando estou por perto,
o meu amor.

sexta-feira, novembro 29

Nunca vi brilharem tanto

Dois olhos adultos
negros de imensidão
surgiram de súbito
e lá, absoluto
tu me observavas
recostado no balcão

Fez-se em mim silêncio 
do tumulto do bar
e dos teus olhos um par
de promessas vadias:
com que pressa querias?

Eu feito bicho
sei lá o que aconteceu
o teu artifício 
três segundos já um vício
agora mais um vício meu

Em cadência acelerada
virei minha gelada
fingindo distração
o papo antes tão bom
já não valia nada

Feito fera me apanhou

com teus olhos de pantera
sem nenhum esforço
suspirei, arqueei o dorso
e nem sabia quem tu eras

Poesia noite adentro, eu e meu pigarro
fui destilar minhas quimeras
na fumaça dos cigarros
mesmo quando amanheceu

por ver a luz vibrar dos olhos teus
só vi breu.

sexta-feira, outubro 11

Ao largo

Move-se ao largo
tal qual leão preguiçoso
a sombra desinteressada do meu corpo

terça-feira, setembro 24

Primavera sem jeito

Tomo um café frio
fechando a cara em desgosto
mas gosto
desse céu cinza lá fora, absorto
Absorvo essa melancolia líquida
amargar o amor dos meus dias
contudo
meus sonhos são tais:
uns lábios quentes
um riso sem segredos
a dissolução do universo
ou pequenas alegrias a mais

quarta-feira, setembro 11

segunda-feira, setembro 2

Lembro tuas palavras

Lembro tuas palavras, nuas
na noite em que não sonhamos
fomos,
não sei como, cúmplices
de uma aventura
depois nos calamos
e fechamos os olhos.

Escuta agora
uma palavra minha:




sexta-feira, agosto 23

Permita-me falar

Permita-me falar? Está escuro lá fora, está nublado, há neblina, faz frio; na floresta, alguns petulantes e líricos insetos fazem festa sinfônica, mais o assobio do vento. É a noite lá fora. Hesito. Devo abrir meu coração? Fecho os olhos, imensidão. Escuto. É serena a espera, mesmo com essa fera para domar. Aprendo. Tomar teus braços num abraço é beber a vida pura, água de beber, que flui e abençoa. Peço. Toda a divina sorte para nós. A humildade de observar-te como um deus, firme e simples, crer tuas palavras como um mantra e ouvir a melodia. Danço. Aos pés de nossos caminhos descalços, sujos de areia, que percorrem os horizontes além. Mergulho. Em teus olhos descubro, elevo mundos, me liquefaço. És puro. Esqueço. E faço votos eternos antes que amanheça.

quinta-feira, agosto 15

Voo

Enquanto desperta
Sustento a graça eterna
e sei
do efêmero que sou

domingo, agosto 4

Com o coração diferente

Com o coração diferente, deitou-se. À sua companhia, o dia prostrava-se para receber a noite, que avançava silenciosa e mansa. O coração diferente falava. Tudo mais era quieto, tudo mais era sonho, ou esquecimento. Era com Deus que falava, meditando palavras sem forma. Amar é uma forma de prece, dizem.

quinta-feira, junho 27

untitled 1

Os caminhos que me levam
são demasiado longos
ou tortos. Ondulo
em sentido contrário,
encontro recônditos
do tempo. Escondo-me
em conchas amorfas
desafio o mar tremendo.

quarta-feira, junho 5

Sintoma

Cresce em meu peito a angústia: amar-te? Quero falar-te, porém não vejo como! Não ouso. Estou presa nesse silêncio hediondo, delicioso que me censura, e toda a doçura dos teus lábios apenas possuo no vento. Ah! Urro calada, como ousaste acariciar minha solidão, tu, com tuas duas belas mãos, ardentes e frias. Agora tremo, temo, te amo? Se me encerro por observar-te, confundo-me nos limites da carne - deliro.

sexta-feira, maio 24

Anagogia

Há um canto de pássaro
Um imenso azul do céu
E buganvílias enquadradas
Na janela.
Há meu corpo molhado,
De um banho recém tomado
Em descanso estendido,
Em minha cama prostrado.
Há esta brisa fresca invadindo o quarto
Beijando minha pele como se fossem teus lábios
(Sutileza conhecida somente dos teus lábios).
Há além, longe de tudo e dentro de mim
O silêncio perseverante de todas as horas
A paz
Há um Eu Te Amo a todas as coisas
  calado.
Há, em súplica,
Meu supremo desmoronamento
Por toda beleza e conhecimento
Há este momento, ligeiro,
E não há nada mais.

segunda-feira, maio 13

?

todos os sentimentos podem ser sublimados

quarta-feira, maio 1

Transtorno

Bebo uma taça de vinho, fumo um cigarro, uso meu cachimbo, e bolo de chocolate.
Carrego os brinquedos do menino, entrego-lhos, para preencher essa ausência de mim que crio, e prendo o choro.
Nada disso é bonito.

Quase chove lá fora, e eu queria que chovesse e a terra encharcasse
E destilasse-se no ar um cheiro peculiar demais pra qualquer momento que fosse e fosse infinito
Chorar nessa medida não é bonito.

Eu ando pela casa, com meu passo torto, decoro mais os degraus da escada, de cima a baixo, e a paisagem da janela já me esquece. Não tenho flores na varanda.
Subverto um sonho, maquiagem pra ficar em casa, palhaça, com o olhar esvazio a sala.
Nada disso é bonito.

quarta-feira, março 20

Menino bonito, ai

Se te entrego um verso,
confesso, busco a verdade
detrás dos teus traços, 
neles tropeço
e te encontro à vontade
enlaçado aos véus 
de meu pensamento
surgem ao acaso 
detalhes tão lentos 
ventos
que imaginam nos lábios 
palavras incertas
que erram entre os dedos, trêmulos,
e perdem-se no tempo 
dos teus negros olhos imensos:
símbolos perfeitos
da luminosa escuridão
que em ti carregas –
labirintos, atalhos, travessas
tudo atravesso
imersa no instante
tão mansa e quieta
pois quero falar-te não mais como amiga ou amante
apenas como poeta.

segunda-feira, agosto 13

Epigrama N° 2

Vêem os que me enxergam, em meus olhos dois abismos:
Fundo de um mar sem vida, vida minha num mar sem fundo.

quarta-feira, junho 13

Depósito

Precisou de muita calma até que o poema brotasse
Um punhado de páprica e gengibre ralado
Precisou ter os pés cansados dos calcanhares judiados
De caminhar e caminhar e caminhar atrás de nada
Precisou que o sol raiasse trinta vezes,
A conta de um mês, e um pouco mais até
Para que as palavras se alinhassem
No horizonte precisou estabelecer-se o alvo
Inalcançável
E encontrar no último dia a alegria do primeiro júbilo adolescente
Foi preciso ficar nua, trocar de pele, reencarnar
Uma, duas, três vezes
E ter fantasmas enigmáticos grudados no teto
Questionando o porquê de uma quarta-feira azul
Ademais, sentir o cheiro da fumaça, do café queimado
Do vinho, do uísque, do cigarro indesejado, do ato indesejado,
Da grama do parque solitário e esfregar-se ao livro do poeta enterrado
Porque fora preciso!
Foi preciso imaginar respirar com a árvore e seus galhos deselegantes
E perder-se de amores por uma joaninha que me subiu o dorso
Lentamente
Lentamente
Foi preciso abaixar a voz, olhar o chão, esperar o soco
Sem nunca intencionalmente abandonar o combate
Pra aprender algo sobre o equilíbrio
E nada aprender exceto o aprendizado
E ter certeza de que não era nada disso
Nem outra coisa mais, nem mesmo aquele sonho
Ou devaneio
Foi preciso esperar
Aprender a esperar,
e sabendo esperar,
não olhar para trás.
Partir.

segunda-feira, junho 11

Ipanema, último dia

Enquanto caminho à beira-mar,
O movimento das ondas fechando ao movimento dos olhos
O vento compondo a valsa mansa do amanhecer
Abandono-te ao livre pensamento da espuma e das gaivotas,
À serena calma das conchas e dos grãos de areia,
À elegância displicente dos ouriços e dos corais.
Ao calor do Sol que ainda não se denunciou
No horizonte a
bandono-te
Com lágrimas d'alvorada
E um pedido por perdão

Que tu sejas branco como as nuvens
E tenhas a delicadeza lábil
Das nuvens, da espuma, dos pássaros
Que tu sejas forte e que Deus te dê asas.

terça-feira, abril 24

Manifestação

Soubéssemos a harmonia e o caos universal
Sonhássemos os dias às medidas do infinito.
A paz das plantas seria um manto no céu
E o canto dos pássaros o compasso transitivo.

Como seria eterna a benção alegre! como!
Breve todo o esforço e translúcida contemplação
(Como seria fácil sustentar o coração!)

Soubéssemos o amor suspenso sobre as nuvens
A imaculada prece dos antigos jardins celestes
Leves seriam as asas, breves os pousos na imensa caminhada terreste

segunda-feira, abril 23

Viagem

Eu vim! Sou fênix, estado de graça
Efêmera, desci da noite láctea
Desci dos céus e fiz-me carne
Corpo, matéria, cinzas do espaço!

Meu íntegro sonho fez-se em pedaço
Nuvens de hidrogênio, asas de pássaro!
E eu fiquei a Terra, inteira e serena
Os olhos no céu e os pés descalços.

E em dança dentro deste negro buraco
Caio em nuances, e em presságios vago
Rimas erradas por sentimentos bárbaros
Rios inteiros de lágrimas, - eu nado!

quarta-feira, abril 4

Epigrama N° 1

Desejei que fosse o vento, desejei que fosse a Lua
Mas quando bateram à porta, apenas ausência tua.

terça-feira, abril 3

Caminho

Vagarosa, a mão vazia
O peito cheio de prosa

Eu sigo!

Invento um compasso,
Perco-o
Canto o meu fracasso.

Eu cedo.
Ou sigo?

Enamoro-me de um rosto
Que logo se vai perdido.
Vão-se até os amigos.

Eu sigo.

domingo, abril 1

Estardalhaço

Grita a poesia em meu peito para que eu me cale
Para que eu deixe de ser esta abertura engendrada
No meio deste túnel perecível de desejos.
Grita, lacerando-me o coração, estancando o rubro
Sangue nas artérias, me sufocando em espasmos infecundos
Torturando-me com a beleza do vento num campo distante.

Ai, meu peito que dói, onde esta fera habita as suas
Raízes como estacas, como pregos, como pássaros!
Acusa-me de ser cúmplice de Deus, atroz em atrocidades
Que me ferem os olhos, que me obrigam a chorar
Mas toda chuva em mim secou, todo rio em mim secou,
Todo mar em mim secou.

quinta-feira, março 15

Fala-me pelo vento

Já bebemos do céu o alvo supremo
E vagamos distâncias etéreas
E sonhamos no denso ventre
Em festa, junto a toda matéria
Sussurros harmônicos de novos universos.

Agora, por que te colocas à parte?
É por que tens mãos para tocar?
É por que tens olhos para ver?
É por que tens imaginação para criar?
Que crias tu, pequena criatura?

Se tuas mãos e teus olhos
Atiras sobre pequenas coisas
Se os lanças sobre ilusões
Se sonhas com eternidades
E as repousas sobre a carne
Desejando que perdurem em teus braços
Se amanhã nem braços tu mais terás!
Se nem olhos, nem mãos, nem imaginação
Que, então, restará de ti nesta vã eternidade
Senão teu breve sonho, senão tuas cinzas às traças.
Que serás de ti quando não o fores mais?
Serás outro! Serás outra coisa! Serás, serás
Cores, serás vento, serás chuva, serás vida
Serás, serás em todas as coisas
Eternos retornos inconstantes de si mesmos
Que irás tu me dizeres? Que irás tu proclamares?
Se todas as palavras são vãs, não digas nada,
Fala-me pelo vento.

E de teu coração rebento, deixa-te
Vai, esquece-te de medo, lança-te
A um universo maior, e contempla
Tua vida perante a aurora, cala-te
Não sofras, não chores, contempla

Não digas nada, fala-me pelo vento.

quarta-feira, março 14

II

Morro por distâncias maiores, deleite de horizontes inteiros
A sorte que trago me é desconhecida e a morte salva-me
Da vida não vivida. E enquanto rumo desertos sem chão,
Quantas mortes caberão na minha mão?

Que mundos pairam para além dos mundos, indago os céus,
Pergunto! Quantos véus e cortinas feitos de vento tecem lamentos?
Quantas horas esquecidas habitam-me a casa das memórias?
E a alma trazida, jaz em que tempo?

Teu Sono

1

Em meu peito repousa tua face
E, cansada de cansaços, observo
Sob a luz da aurora, com ternura
Teu sono imaculado. Não despertes.

Que doçura teus lábios entreabertos
Teus olhos cerrados de segredos
Que sonhas em sonhos que sonhas?
Não anseio decifrar-te. Não despertes.

2

O movimento inócuo de meu colo
Move-te, e a nuvem que vejo no céu
Abre-se como uma rosa em pétalas
Ao silêncio da tua branda respiração
Embalas-me num sonho desperto

Nele meu corpo que se agita quieto
Como esta fina flor celeste, abriga
O sossego do teu sono e dispersa
Para longe nossos medos antigos.
Doce sonho, sussurro quase numa prece:

Meu bem, não te despertes.

Ah, que bom seria

Ah, que bom seria passar o dia
Na praia, uma vez por dia
Todos estes dias quentes azuis

Distante de toda esta fumaça
Deste crescimento regressivo
Deste brado de covardia
Que vende inúteis demasias
Que nos torna em mortos-vivos
De rostos tão frios e esvaziados
E tão cheios de dor e ideais
Abandonados ou pré-concebidos

Estou de saco cheio, fatigada
Desta lírica ausente, extermínio
De minha voz...

Estou de saco cheio de sorrir
A estranhos que me negam seus olhos
Sorriam, meus irmãos, à menina que passa!
Ela sabe, em seu pequeno peito,
Estamos condenados
Mas, em seu  pequeno canto, ela diz
Ainda há qualquer coisa de belo
Ainda há beleza em qualquer coisa
Ainda! O céu ainda é azul
Honrem seus olhos, ousem olhar!
Cantem, sorriam, riam... Ou morram
Matem-se de uma vez
Mas libertem estas almas
Que elas passam fome
Como tantas crianças, Senhores!...
Libertem-nas!

Mas, ah, que bom seria passar o dia
Na praia, uma vez por dia
Todos os dias quentes azuis
Mas não há como ignorar
Esta dor quando diz-me que não vai nos salvar...

segunda-feira, março 12

Mulher Poeta Cecília

Encontrei-a, efígie minha, desintegrada
Amásia líquida, mar de um colo amado,

És ferida que arde aberta, abençoada!
Liberdade densa de meu pranto ancorado.

Flutuo rasa mares teus profundos
Deságuo desamparada noutros mundos
E caminho peregrina, por tua luz guiada.
 
Estás sempre no vento, brisa presente
És o que permanece ecoando de mim - nascente!
Da quietude, dir-te-ia tudo se me coubesse, um dia, tua voz

Mas não há pesares, sofrimento, não há cura no meu alento
Não há loucura ou descontento, somente uma tristíssima sina
É somente ausência de todo encanto na tua delicadíssima voz.

E neblina.

quarta-feira, março 7

Vida

Que alegrias infinitas habitam o leito dos teus lábios
Teus olhos têm o sossego de todos os céus da infância
E girassóis mais felizes que todas as cores quietas.

No teu seio de campinas, no teu âmago oceânico,
Habita um passarinho, pequenino senhor de todo canto celeste
Presente desta vida, vida, vida que tu me deste.

segunda-feira, março 5

Eco

Não, Deus!, jamais encontrarás no repouso de meu seio
O Verso rasgado de um poeta, com o qual decompus
A noite amante em tardes de prantos.
Não, Deus!, não te enganes quanto a mim
Não fiz-me triste
Não fiz-me – de minha carne – leito
De uma treva esquecida.
Esta máscara cairá!
Por mais tristeza que se repouse sobre abismos
Dos meus olhos
Fiz-me apenas vazia,
para ser breve hospedeira da alegria
para ser caminho da água corrente poesia
numa ânsia tremenda de amar sem sofrer
numa prece equivocada por amar sem amor.

E neste tumulto absurdo de minha alma
Que se sente sufocada presa dentro deste corpo
E ameaçada pela imensidão inconsútil.
Que sonhos me restaram?
Se vacilo entre o grande e o pequeno
Se perco-me com tudo e com nada
Fascínios
Mais cheios e mais vazios
Do que compreensíveis aos limites da aurora
Minha própria alma, que habita este mundo
Além de mim.
Não é cabível o inimaginável
E paira suspenso por sobre esta imensidão
Apenas como um suplício
O revérbero da essência estática.

A vida segue...

terça-feira, fevereiro 28

I

Por onde estive em imaginação vagando? Vaga
Que não estava aqui, estava noutro lugar sem sequer estar.
Que mundos distantes ecoavam gritantes? Voaram para longe
Quimeras, ai, quantas eras! Desprendi-me em sonhos e solidão.

Se quando vou, sequer estou, e quando quero, não desespero
Meu quando é todo tempo, a alma, brevidade eterna
Asa invisível que me leva, asa invisível que me eleva. Vou
Alegre e triste neste triste e alegre vôo, acima de tudo
Que existe e sou.

E sangrando por ousar habitar-me, outra vez pergunto:
Por que à parte se quero ser íntegra parte de tudo?

terça-feira, fevereiro 14

Amantes:
Que sejamos bons o bastante para sermos bons

quarta-feira, fevereiro 8

Reinventando a Quadrilha

Ele amava Ela, assim como a tantas outras
E tantas outras o amavam, assim como ela
Ela só a ele, ele mesmo que não só a ela
Amava-a só
Da única maneira
Que não se poderia amar
Única maneira
Que não se permite amor
Mas o amor não tem regra
Ele é livre,
Ela também!

quinta-feira, janeiro 26

Dos teus olhos

Carregas ocultas turquesas
Por detrás dos teus olhos
De âmbar

terça-feira, janeiro 17

Prece

Peço apenas

Que eu tenha olhos mais profundos que o tempo,
Que eu tenha tempo para fechar meus olhos;
E a sabedoria para, de olhos fechados, enxergar
O que existe à minha volta.

segunda-feira, janeiro 16

Instante

Eu sou este rasgo selvagem de vida
Contemplo o sol e o céu da aurora

De instantes e faíscas, nascida a cada hora
Eu brinco de crer e duvidar.

Meu canto é este canto
Como qualquer outra coisa viva

Voz de gato arranhando vitrola
Sussurro de flor, silêncio de vento
Estandartes do amor
E assim, quero cantar
Pululantes belezas!
Entregas bravias ao mar
De quando eu for, quando chegar

Não tenho horas, senão agora
Não diga-me quando ir embora
Você pode não mais me encontrar
Porque eu sou, já fui
Não frágil existo porque vivo, ao contrário,
Sou presente de minha própria existência
E só.

sexta-feira, janeiro 13

Meu Recado

Que sempre ao amanhecer
A vida que venha:

E inunde as janelas,
E atropele as portas,
E bagunce os móveis,
E depois

Que derrube muralhas,
Que enobreça os céus
Simplifique o complexo
E destitua o perverso,

Entorpeça a razão,
Abençoe teu coração,
Abra teus olhos,
Rasgue-lhe a pele,

Lhe dê coragem,
Reverbere a verdade,
Lhe entregue a bondade,
E faça sentir

No mais profundo,
No mais íntimo,
Âmago da alma,

A eterna festa que é viver
Em comunhão.

quinta-feira, janeiro 12

Véu

Quando vês meus olhos
O que vês?

Quando os abro, meus olhos,
Como me abres?

Quando me fecho, os fecho,
Intrigo-o, te entregas me?

Envolto a esta dual dança
Até onde alcanças segredos em mim?

quarta-feira, janeiro 11

Amar Amar

Logo que eu deixar de amar somente teus olhos
E amar os olhos breves do céu
Logo que deixar de me debruçar sobre teus lábios
E debruçar-me a carne sob os lábios quentes do Sol
Logo que eu deixar de a ti somente me entregar
E entregar-me por inteiro ao mar
Poderei amar-te eternamente
Como brisa, como pássaro, como benção e luz
Amar-te-ei
Pois tu, irmão, és como eu e o infinito
És feito de ar, prima beleza imaterial,
E no centro do teu peito,
Assim como em meu agora desabitado corpo
E no seio 
etéreo da própria morte
Jaz o desejo ímpar de permanecer
Permanecer liberto, permanecer intacto
Permanecer apenas,
Sem mais nada desejar

Vir a ser perpétuo amar.

terça-feira, janeiro 10

De Repente

Meu poema virou lenda
Penetrou nesta fenda,
Entre o céu, a terra e o mar.

Restou apenas meu saber ser feliz
Meus últimos íntimos versos lancei
Em horas claras e mergulhos anis

Como faíscas manuscritas
Num celeste sem-fim

Como um beijo estendido
A um incógnito querubim

Como minha própria alma,
E tão somente assim.

Simplicidade

Havia inspiração,
Havia um Deus
E minhas mãos.

Havia silêncio
Havia um eco
E o vento.

Havia luz
Havia um Sol
E alguém.

Havia amor
Havia um dia
E magnanimidade.

Havia mar
Havia um há-de-amar
E tão pequenos versos.